Na última sexta-feira (23), o Instituto de Desenvolvimento Nossa Senhora de Fátima (IDNSF) promoveu uma roda de conversa com as marisqueiras da comunidade do Robalo, da zona de expansão da capital Aracaju (SE), para apresentação do novo projeto Guardiãs do Mangue, voltado para ampliação do acesso das trabalhadoras em ações de segurança, direito e visibilidade.
A roda de conversa aconteceu na sede do Instituto Mariano de Estudos e Inovação (Faculdade IMEI) e contou com a participação da coordenadora do IDNSF, Ana Plech, para apresentação da iniciativa.
Segundo Ana, o projeto será estruturado em três eixos principais para ajudar no combate da vulnerabilidade e ameaças territoriais que possam impedir a atuação das marisqueiras. Estes eixos serão separados em:
- Preservação da integridade física, com distribuição de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), como camisas com proteção solar, luvas flexíveis e calçados prórpios para a maré;
- Inovação e cooperativismo da comunidade, que busca eliminar a dependência dos atravessadores e colocar as trabalhadoras em contato direto com hotéis e restaurantes locais;
- Turismo de base comunitária, com sensibilização socioambiental, geração de renda complementar e inclusão da comunidade.

Integridade física das marisqueiras
A saúde ocupacional e integridade física das marisqueiras foi o primeiro ponto debatido na roda de conversa da última sexta-feira. As trabalhadoras do mangue estão mais vulneráveis em relação à saúde e risco laborais, visto a exposição frequente e desprotegida à umidade, lama e ao sol.
Dona Gilza Maria, 63 anos, uma das marisqueiras presentes, pontuou a importância dos materiais de EPI na rotina e na proteção dos diferentes problemas causados pela umidade. “A gente que é mulher, que é marisqueira, sempre tá com problema de inflamação.”
A presença das marisqueiras elevou o nível de apresentação, visto que a medida em que iam sendo apresentadas as soluções para os problemas encontrados, era possível ter a visão de quem já vive sob essa realidade. Como, por exemplo, na apresentação dos modelos de vestimentas e luvas que deveriam ser entregues às trabalhadoras.
“Tem que ser calça porque tem muita coisa para arranhar as pernas e inflamar”, destaca dona Gilza. “Tem que ser luva que dê flexibilidade.”
Além disso, nesse primeiro eixo também foram discutidas a conscientização de oficinas sobre o uso contínuo dos EPIs e o impacto que a proteção deve gerar na redução dos índices de afastamento do trabalho por lesões e doenças ocupacionais.
Inovação e cooperativismo da comunidade
Na segunda parte do encontro, Ana Plech apresentou modelos de estruturação para transformar a forma como o marisco é tratado e comercializado, buscando tirar a dependência que as marisqueiras têm dos atravessadores e colocá-las em contato direto com as empresas que desejam comprar seus produtos.
Atualmente, as marisqueiras realizam apenas a pesca e a cata e acabam repassando a produção por preços muito baixos para esses intermediários. Por isso, a estimativa do projeto é certificar e padronizar a produção, com selo de controle sanitário, e fazer o marisco ganhar valor no mercado pelas mãos das próprias marisqueiras.

Além disso, o projeto busca criar um espaço coletivo no Robalo para funcionar como cozinha para que as trabalhadoras possam realizar a higienização dos mariscos, com freezers para conservação e máquinas para embalagem a vácuo.
Turismo de base comunitária
O último eixo a ser apresentado é voltado para a geração de renda para a comunidade do Robalo, especialmente em tempo de defeso. Na ideia, a proposta é transformar a vivência tradicional em uma experiência turística sustentável, para estimular a conscientização ambiental ao mesmo tempo em que se trabalha a defesa do território contra a especulação imobiliária.
A experiência é pensada para gerar sensibilidade com o público externo e destacar a importância do manguezal tanto para as trabalhadoras quanto para o território. Além disso, o projeto é também pensado para a inclusão de jovens na preservação do meio ambiente e geração de renda dentro da própria comunidade.
Para que a renda e o trabalho continuem nas mãos das marisqueiras, o projeto busca capacitar as mulheres a administrar a própria associação e a precificar os seus produtos de forma justa e técnica.
A intenção, de acordo com Ana, é de que elas saibam de todos os custos envolvidos no trabalho e identifiquem o valor real do produto, através de oficinas de controle e letramento financeiro.

Impacto para a comunidade
Devido a escassez e a desvalorização da profissão, pescar marisco deixou de ser garantia para pagamento das contas e compras de casa, o que levou muitas profissionais a abandonarem o mangue e buscar outras atividades para completar a renda.
Dona Gilza relata que antigamente uma ida ao mangue trazia de 4 a 6 kg de marisco para gerar renda. No entanto, hoje em dia a realidade é completamente diferente. “Hoje em dia a gente vai a semana toda para completar 1 kg de marisco”, afirma.
No projeto, ela enxerga a oportunidade de desenvolvimento e maior visibilidade para a profissão, em um destaque que, de acordo com as próprias palavras de Dona Gilza, “não é sobre o dinheiro”.
Dona Gilza foi a primeira ponte do projeto com a comunidade do Robalo, através de uma ligação com Ana Plech, e foi também apontada como uma das responsáveis para estar a frente da futura associação das marisqueiras prevista para ser implementada.
