Letramento de Mundo 50+: uma experiência pioneira de educação, inclusão digital e longevidade

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Quando defendemos que o Brasil precisa avançar da EJA — Educação de Jovens e Adultos — para uma perspectiva de EJAI — Educação de Jovens, Adultos e Idosos, não estamos discutindo apenas uma alteração de nomenclatura. Estamos falando sobre a necessidade de reconhecer que o envelhecimento populacional modifica também as demandas educacionais e exige novas respostas das instituições. É nesse contexto que considero importante apresentar uma experiência que vem sendo desenvolvida em Aracaju e que, por sua concepção, metodologia e articulação entre educação, território, tecnologia e longevidade, possui caráter pioneiro: o Projeto Letramento de Mundo 50+: Conectando Gerações na Era Digital, desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Nossa Senhora de Fátima, com metodologia concebida e estruturada no Instituto Mariano de Estudos e Inovação – IMEI, e com o apoio da Rede Geronto e de instituições parceiras.

Tenho acompanhado esse processo também a partir da minha atuação como Diretora-Geral do IMEI, espaço no qual foi desenvolvida toda a metodologia de aprendizagem voltada às pessoas idosas que sustenta o projeto. Desde o início, nossa preocupação foi construir uma proposta que não partisse de conteúdos prontos ou de uma lógica escolar tradicional aplicada de forma automática a um público mais velho. A metodologia foi desenhada a partir do território, das histórias de vida, das necessidades concretas e das experiências cotidianas das pessoas participantes. Isso significa compreender onde vivem, como se deslocam, quais serviços utilizam, quais dificuldades encontram, que redes de apoio possuem, como se relacionam com a tecnologia e quais conhecimentos já construíram ao longo da vida.

Essa dimensão territorial é central. Para nós, a aprendizagem não acontece de forma abstrata. Ela acontece em um contexto social concreto, atravessado pelas relações familiares, comunitárias e institucionais. Por isso, o território não é apenas o lugar onde o projeto acontece; ele é parte da própria metodologia. Os conteúdos são organizados a partir de situações reais da vida cotidiana, de demandas identificadas no contato com as pessoas e de problemas que fazem sentido para sua autonomia, participação social e exercício de direitos.

O projeto nasceu da percepção de uma realidade que se torna cada vez mais evidente. Vivemos em uma sociedade na qual quase todas as dimensões da vida cotidiana estão mediadas por tecnologias digitais. Marcar uma consulta, consultar um exame, acessar um serviço público, movimentar uma conta bancária, utilizar o Pix, localizar um endereço, comunicar-se com familiares ou acessar benefícios sociais são atividades que, progressivamente, migraram para celulares, aplicativos e plataformas digitais. Para quem teve oportunidade de acompanhar essa transformação desde cedo, essas tarefas podem parecer simples. Para milhares de pessoas que chegaram à maturidade ou à velhice sem contato sistemático com essas ferramentas, entretanto, a digitalização pode produzir novas formas de dependência e exclusão.

Foi exatamente diante dessa realidade que estruturamos o Letramento de Mundo 50+, destinado a pessoas com 50 anos ou mais. A proposta não se restringe a ensinar como operar um aparelho celular. Ela articula leitura, escrita e competências digitais por meio de uma metodologia ativa, territorial e temática, que reconhece as histórias de vida dos participantes e busca fortalecer autonomia, protagonismo e participação social.

Considero esse aspecto particularmente relevante. Ao utilizar a expressão “Letramento de Mundo”, ampliamos a própria compreensão do que significa alfabetizar e educar na sociedade contemporânea. Paulo Freire nos ensinou que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Hoje, podemos acrescentar que uma parcela importante desse mundo também se apresenta em uma tela. Ler o mundo contemporâneo significa saber interpretar uma mensagem recebida pelo celular, reconhecer uma tentativa de fraude, utilizar um mapa digital, compreender uma informação de saúde encontrada na internet, acessar um aplicativo público e distinguir uma fonte confiável de uma informação falsa.

Assim, alfabetização, letramento e inclusão digital tornam-se dimensões cada vez mais interdependentes do exercício da cidadania.

As oficinas realizadas no projeto traduzem essa concepção para situações concretas da vida cotidiana. Os participantes têm contato com recursos como mensagens, aplicativos, navegação na internet, localização por mapas, ferramentas de inteligência artificial, comunicação digital, segurança na internet e operações financeiras como o Pix. O mais importante, porém, é que esses conteúdos não são apresentados de forma isolada. Eles são trabalhados a partir de problemas reais e de situações vividas no território.

Oficina de letramento digital realizada com a primeira turma do projeto. Imagem: Arquivo.

Se ensinamos a utilizar mapas digitais, discutimos deslocamento, localização, mobilidade e autonomia. Se trabalhamos o Pix, também abordamos segurança, prevenção de golpes e organização financeira. Se discutimos aplicativos de saúde, relacionamos o conteúdo ao acesso a consultas, exames, serviços e informações confiáveis. A tecnologia deixa de ser um fim e passa a ser instrumento para ampliar autonomia e cidadania.

Esse é um dos princípios que orientam a metodologia desenvolvida no IMEI: a aprendizagem precisa fazer sentido na vida de quem aprende.

Isso é particularmente importante quando trabalhamos com pessoas idosas. A pessoa que chega a uma oficina aos 60, 70 ou 80 anos não chega sem conhecimentos. Ela traz uma trajetória, uma profissão, uma história familiar, conhecimentos comunitários, estratégias de sobrevivência, redes de relacionamento e experiências acumuladas ao longo de décadas. A metodologia precisa reconhecer esses saberes e construir novas aprendizagens a partir deles.

Por isso, nosso trabalho no IMEI se distancia de qualquer abordagem infantilizante. As pessoas idosas não são tratadas como sujeitos passivos nem como pessoas incapazes de aprender. Ao contrário, são reconhecidas como protagonistas do processo educativo e produtoras de conhecimento.

Os resultados da primeira experiência demonstram a força dessa abordagem. Em agosto de 2026, foi concluída a formação da primeira turma e lançada a Cartilha Letramento Digital 50+: Conectando Gerações na Era Digital, construída a partir do próprio percurso de aprendizagem. Há, nesse processo, um elemento que considero especialmente significativo: as participantes não foram apenas destinatárias de um material didático. Elas contribuíram para sua construção.

Esse aspecto traduz a concepção pedagógica que buscamos consolidar no IMEI. Não queremos produzir conhecimento apenas para as pessoas idosas. Queremos produzir conhecimento com elas.

Essa mudança de posição é fundamental. Quando uma pessoa participa da identificação do problema, da construção da solução e da sistematização do conhecimento, ela deixa de ser vista apenas como beneficiária de uma ação e passa a ser reconhecida como sujeito ativo da experiência educativa.

Do território para a metodologia

Uma das principais contribuições do projeto está justamente na forma como território e aprendizagem se articulam.

Ao desenvolvermos a metodologia no IMEI, partimos da compreensão de que as necessidades educacionais não podem ser separadas do contexto em que as pessoas vivem. O bairro, os serviços disponíveis, os equipamentos públicos, as redes familiares, as condições de mobilidade, as práticas culturais e as relações comunitárias interferem diretamente na forma como as pessoas aprendem e utilizam o conhecimento.

Por isso, a metodologia pode ser compreendida como territorializada. Ela parte do cotidiano e retorna ao cotidiano.

Aprender a utilizar uma tecnologia não tem valor apenas porque o participante dominou uma ferramenta. O valor está em conseguir utilizá-la para resolver uma necessidade real: localizar um serviço, acessar um direito, conversar com alguém, organizar uma atividade, obter uma informação ou realizar uma tarefa com mais independência.

Essa perspectiva aproxima educação, gerontologia, cidadania e desenvolvimento territorial.

Da inclusão digital à autonomia

A cartilha aborda os eixos da comunicação, informação e cidadania. Imagem: Arquivo.

Uma das participantes resumiu de maneira extraordinária aquilo que os indicadores nem sempre conseguem traduzir ao relatar que se sentia mais apta a realizar atividades como marcar uma consulta e consultar exames pelo celular. Esse tipo de resultado demonstra que inclusão digital não significa apenas acesso à tecnologia.

Uma pessoa pode possuir um smartphone e continuar digitalmente excluída. Pode ter acesso à internet e não conseguir utilizar um serviço público. Pode receber informações diariamente e não conseguir avaliar sua confiabilidade. Pode depender de filhos, netos ou terceiros para atividades que poderia realizar com autonomia se tivesse oportunidade de aprender.

Por isso, precisamos avançar do conceito de acesso digital para uma perspectiva mais ampla de letramento digital e autonomia.

Um projeto que antecipa a discussão sobre a EJAI

É justamente por isso que vejo o Letramento de Mundo 50+ como uma experiência diretamente relacionada ao debate nacional sobre a EJAI.

Se defendemos que a educação de jovens e adultos precisa reconhecer explicitamente as pessoas idosas, precisamos também construir metodologias capazes de responder às diferentes velhices, territórios e trajetórias.

Não será suficiente inserir estudantes idosos nas estruturas educacionais existentes e esperar que se adaptem. É necessário fazer o movimento inverso: adaptar metodologias, currículos, horários e estratégias às pessoas e aos territórios.

O trabalho desenvolvido no IMEI aponta nessa direção. A metodologia reconhece as experiências anteriores, utiliza problemas concretos como ponto de partida, valoriza o território, trabalha a autonomia e articula educação com tecnologia, cidadania e participação social.

Essa é, para mim, uma das principais contribuições do projeto. Ele demonstra que a educação ao longo da vida precisa ser construída a partir das pessoas reais, das suas histórias e dos lugares onde vivem.

Uma construção em rede

O projeto também reforça um princípio que temos defendido permanentemente na Rede Geronto: os desafios da longevidade precisam ser enfrentados por meio de redes de cooperação.

Educação, saúde, assistência social, tecnologia, cultura e participação comunitária não podem funcionar de forma isolada. A população envelhece no território, e é no território que as políticas precisam se encontrar.

O apoio da Rede Geronto ao Letramento de Mundo 50+ amplia justamente essa dimensão. Permite conectar a experiência local com discussões mais amplas sobre envelhecimento, educação ao longo da vida, produção científica e cooperação entre instituições.

Essa articulação também cria possibilidades de pesquisa, avaliação de resultados e replicação da metodologia em outros contextos.

Do projeto local a uma política de educação ao longo da vida

Considero que o próximo passo é aprofundar a sistematização dessa experiência. Precisamos acompanhar indicadores de aprendizagem, autonomia, segurança digital, utilização de serviços públicos, participação social e percepção dos próprios participantes sobre as mudanças produzidas pelo projeto.

Essa avaliação pode transformar uma experiência local em uma metodologia cada vez mais sólida, passível de aperfeiçoamento e adaptação a diferentes territórios.

E talvez esteja aí uma de suas maiores contribuições.

O Letramento de Mundo 50+ mostra que é possível desenvolver práticas educativas capazes de responder ao envelhecimento populacional sem infantilizar as pessoas idosas, sem reduzir o envelhecimento às perdas e sem tratar tecnologia como privilégio das gerações mais jovens.

Ao contrário, a experiência parte do protagonismo, da autonomia, do território e da produção compartilhada do conhecimento.

Foi no Instituto Mariano de Estudos e Inovação – IMEI, instituição que tenho a responsabilidade de dirigir, que estruturamos essa metodologia de aprendizagem para pessoas idosas baseada no território. E é também a partir dessa experiência que reforço uma convicção construída ao longo da minha trajetória profissional: uma sociedade longeva precisa de uma educação igualmente longeva.

Uma educação que não termine em determinada idade. Uma educação capaz de reconhecer saberes, produzir autonomia, ampliar direitos e acompanhar as pessoas durante todo o curso da vida.

Se estamos discutindo a passagem da EJA para a EJAI, precisamos aproveitar esse momento para ampliar o debate. Não basta perguntar como inserir as pessoas idosas nas políticas educacionais existentes. Precisamos perguntar que novas metodologias, tempos, espaços e formas de aprender uma sociedade longeva exige de nós.

O Letramento de Mundo 50+ é uma das respostas que estamos construindo. Uma resposta que nasce do território, é construída com as pessoas e se fortalece em rede.

Suzana Schwerz Funghetto

Diretora-Geral do Instituto Mariano de Estudos e Inovação – IMEI

Diretora da Rede Geronto

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