No Brasil, o envelhecimento feminino carrega consigo não apenas a riqueza das memórias, afetos e histórias, mas também desafios silenciosos e dolorosos. Entre eles, a violência contra a mulher idosa segue como um problema social subnotificado e, muitas vezes, invisível. Por trás de portas fechadas e disfarçada em gestos cotidianos, essa violência atravessa gerações, se manifesta de formas variadas e exige atenção, informação e ação.
Para dar voz a essa pauta urgente, o episódio 7 do Podcast Saber Sênior: Trajetórias, uma produção da Rede Geronto em parceria com o Instituto Mariano de Estudos e Inovação (IMEI), dedicou um episódio especial ao tema. Sob a condução do jornalista Sérgio Cursino, o episódio reuniu aspectos legais, sociais e humanos dessa realidade que atinge mulheres acima dos 60 anos.
A violência que não deixa marcas visíveis
A violência contra a mulher idosa vai muito além das agressões físicas. Ela se manifesta no abandono emocional, na negligência, no controle financeiro e na restrição da liberdade. De acordo com o advogado e professor Tarcizo Nascimento, convidado do episódio, essa violência é muitas vezes velada, sem marcas aparentes, o que dificulta a identificação e a denúncia.
“Essa violência, pegando para um ponto mais específico, contra a mulher idosa tem de ser até mais realçada em razão da sua idade, porque é um conflito entre a Lei Maria da Penha e o Estatuto do Idoso”, ressaltou Tarcizo durante a conversa.
Os desafios da legislação contra violência a mulher idosa
Embora o Brasil conte com dois importantes instrumentos legais, o Estatuto do Idoso e a Lei Maria da Penha, o diálogo entre essas legislações ainda apresenta lacunas. O episódio debateu como essas normas se articulam (ou não) na prática e destacou a urgência de preparar os canais de denúncia para acolher esse público de forma qualificada.
Para Tarcizo, é essencial que os profissionais do Direito, da assistência social e da saúde compreendam as especificidades da velhice e estejam atentos às formas sutis de violência. “Os mecanismos jurídicos para isso hoje são avançados no Brasil, nós somos até referência sobre isso… se a mulher hoje sofre uma violência desse tipo, ela só em ir à delegacia falar que está sofrendo esse tipo de violência, consegue uma medida protetiva e vai afastar esse malfeitor, digamos assim, esse agressor”, pontuou.
Redes de apoio e fortalecimento emocional
A educadora e diretora do IMEI, Suzana Funghetto, trouxe ao episódio um olhar atento sobre os impactos sociais e de saúde pública que essa violência causa. Ela destacou como a dependência afetiva e econômica pode aprisionar mulheres idosas em ciclos de agressão, e como a criação de redes de apoio é fundamental para romper esse ciclo.
“A questão também que as mulheres brasileiras entre de 70 e 80 anos muitas não foram alfabetizadas, não terminaram seu processo de alfabetização, isso causa também uma questão de violência séria”, afirmou Suzana.
Educação jurídica como ferramenta de transformação
O episódio também discutiu o papel da educação jurídica voltada ao público sênior como estratégia para o fortalecimento da autonomia. Iniciativas como as promovidas pelo IMEI Academy buscam disseminar conhecimento sobre direitos e deveres, empoderando mulheres e homens acima de 60 anos.
Tarcizo defendeu que, além de se informar em relação aos seus direitos, as mulheres devem desenvolver coragem para denunciar seus agressores. “Em sua maioria, elas têm medo da reação, medo do que vai acontecer e não denunciam, quando você não denuncia, você aumenta a potencialidade do agressor, porque ele se sente no direito de fazer qualquer outra coisa”, concluiu.
Ouça o episódio completo
O Saber Sênior: Trajetórias propõe, mais do que um debate, um convite à escuta e ao reconhecimento da trajetória dessas mulheres. Respeito, afeto e informação são caminhos essenciais para envelhecer com dignidade e para combater a violência em todas as suas formas.
Assista o episódio completo “Violência contra a mulher idosa: desafios, direitos e caminhos para a proteção” no canal do YouTube do IMEI!
