Quando o cuidador também é idoso: a face invisível do envelhecimento no Brasil

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O Brasil vive uma das transformações demográficas mais aceleradas do mundo. De acordo com o Censo, a população com mais de 60 anos quase dobrou entre 2010 e 2022, e projeta-se que essa faixa etária se torne a maior parcela populacional do país já em 2046. Em meio a esse cenário, surge uma questão ainda pouco discutida: o papel de idosos que assumem a responsabilidade de estar cuidando de outros idosos, como cônjuges, pais ou irmãos.

Sobrecarga emocional

Um estudo realizado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de Botucatu, trouxe à tona esse fenômeno. Publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, o artigo “Significados atribuídos ao cuidar de uma pessoa idosa na família” analisou os relatos de idosos entre 60 e 80 anos que cuidam, sem remuneração, de familiares entre 66 e 96 anos. 

O que se fala no “Significados atribuídos ao cuidar de uma pessoa idosa na família”: a pesquisa envolveu entrevistas com 23 participantes com mais de 60 anos, que atuam como cuidadores não remunerados de parentes igualmente idosos, com doenças crônicas ou dependência funcional. O estudo revela a realidade de idosos cuidando de idosos, identificando duas dimensões principais: os aspectos relacionados aos cuidados prestados e os impactos na qualidade de vida de quem cuida.

De acordo com os pesquisadores, as condições de saúde dos idosos assistidos exigem dedicação constante, o que interfere diretamente no bem-estar físico e emocional dos cuidadores. Os relatos apontam sentimentos de exaustão, frustração, isolamento, mas também carinho e gratidão, mostrando a complexidade da experiência. Muitos dos entrevistados não se sentiam preparados para o papel que assumiram, nem contavam com apoio técnico ou familiar.

O estudo investigou como essas cuidadoras interpretam seu papel, os sentimentos que esse processo desperta e os impactos sobre suas próprias vidas, justamente em um momento em que também enfrentam os desafios do envelhecimento. 

Ainda que muitos relatos expressam carinho e gratidão, são recorrentes sentimentos de frustração, culpa, raiva e auto exigência excessiva. 

Muitas relatam dores físicas, piora na saúde mental, ausência de apoio familiar e, em alguns casos, o cuidado simultâneo de dois idosos dependentes.

Rotina exaustiva e dupla vulnerabilidade

O impacto na rotina dessas mulheres é profundo. Como explica uma das entrevistadas: “Cuidar da minha mãe, cuidar de uma pessoa com Alzheimer, muda muito a vida da gente […], você não consegue ter uma vida normal, tem que ter uma dedicação maior para ela do que para os outros da casa”. 

O fardo do cuidado, muitas vezes não escolhido, compromete projetos pessoais, gera estresse, tristeza e sentimentos de solidão. 

A situação é agravada por um fator descrito pelos pesquisadores como “dupla vulnerabilidade”: essas mulheres precisam cuidar de outro idoso enquanto lidam com as próprias limitações físicas e emocionais da velhice.

Outro ponto levantado é a cultura patriarcal que delega o cuidado prioritariamente às mulheres, aumentando a sobrecarga sobre elas. 

A falta de informação, estrutura e suporte formal também é evidente. “Há relatos da frequente falta de orientação aos cuidadores familiares, que precisam de uma rede de apoio e de proteção, bem como de tempo para si e de se enxergarem no mundo”, destaca o artigo.

Cuidado não remunerado cresce, mas ainda é invisível

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de familiares cuidando de pessoas com mais de 60 anos subiu de 3,7 milhões em 2016 para 5,1 milhões em 2019. 

Desses, 78,8% exercem essa função de forma não remunerada. Mais grave ainda: 10,9% dos idosos com limitação funcional sequer recebem qualquer tipo de apoio. 

Em um país que ultrapassa os 32 milhões de pessoas idosas, a falta de reconhecimento e suporte a esses cuidadores familiares é um problema urgente.

O economista Jorge Félix, especialista em economia do cuidado, ressalta que o Brasil está passando por uma transição epidemiológica. “Haverá aumento das doenças crônicas, muitas não hospitalizadas. Alzheimer, Parkinson, AVC e demências vão exigir mais cuidado domiciliar. E quem vai assumir esse papel?”, questiona. Sem políticas de suporte, essa responsabilidade seguirá recaindo, de forma desigual, sobre as mulheres da família.

Plano “Brasil que Cuida” promete avanços concretos

Em resposta à urgência do tema, o governo federal sancionou em dezembro de 2024 a Política Nacional de Cuidados, elaborada de forma interministerial. No entanto, ela representa apenas um marco normativo. A expectativa recai agora sobre o Plano Nacional de Cuidados, chamado Brasil que Cuida, que deve ser lançado em breve. Segundo a Agência Brasil, o plano contará com cinco eixos principais:

  1. Garantia de direitos e apoio a cuidadores não remunerados;
  2. Compatibilização entre trabalho, educação e responsabilidades de cuidado;
  3. Promoção do trabalho decente para cuidadores remunerados e domésticos;
  4. Valorização cultural e reconhecimento do trabalho de cuidado;
  5. Estrutura de governança e gestão integrada.

Se implementado com eficácia, o plano pode representar um divisor de águas na forma como o Brasil encara o envelhecimento e os cuidados que ele exige, especialmente no contexto de idosos cuidando de idosos. Entretanto, para que se torne realidade, será preciso vontade política, investimentos e uma mudança cultural que reconheça o valor do cuidado, seja ele profissional ou familiar.

Refletir, reconhecer e agir: um caminho coletivo

Em suma, a realidade dos idosos cuidadores desafia o Brasil a repensar suas prioridades, não se trata apenas de políticas públicas, mas de uma mudança de mentalidade. 

Cuidar de quem cuida é garantir o direito à dignidade em todas as fases da vida. É reconhecer que o envelhecimento não é um problema individual, mas um fenômeno social que exige solidariedade, estrutura e compromisso coletivo.

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