Os desafios do envelhecimento no Brasil vão muito além das questões de saúde e previdência. Para muitas pessoas, chegar aos 60 anos ou mais significa iniciar um novo capítulo, repleto de oportunidades para viver de forma ativa, significativa e cheia de propósito. Em vez de encarar essa fase como um ponto final, é possível transformá-la em um convite para reinventar trajetórias, reencontrar amigos e explorar novas possibilidades.
Nesse contexto de rápido envelhecimento populacional, com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicando que o número de pessoas acima dos 60 anos deve dobrar até 2050, os desafios se multiplicam. Cada vez mais idosos enfrentam dificuldades financeiras, problemas de saúde e, principalmente, obstáculos para se integrar socialmente.
Dados do Censo 2022 mostram que a proporção de brasileiros com 65 anos ou mais passou de 7,4% em 2010 para 10,9% em 2022, a maior desde 1940.
Diante desse cenário, há caminhos para transformar essa realidade. Um deles passa pela valorização do convívio social e da aprendizagem ao longo da vida. Estudos e experiências de diversas iniciativas comprovam: manter-se ativo socialmente e intelectualmente reduz os riscos de solidão, ansiedade e declínio cognitivo.
Heterogeneidade invisibilizada
Segundo a especialista Ana Amélia Camarano, PhD em estudos populacionais, professora da UERJ e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), é preciso romper com a visão simplista que trata os idosos como um grupo uniforme.
“A maior parte é composta por mulheres, quase 50% são negros e perto de 10% se identificam como LGBTQIA+. Além disso, temos hoje uma população idosa com grandes diferenças de acesso à renda, saúde e moradia”, afirmou.
As mudanças nas regras da Previdência Social, em vigor desde 2019, contribuíram para a queda no número de aposentados, que caiu de 78% em 2016 para 75% em 2023. Mas, segundo Camarano, o impacto mais grave veio do aumento de pessoas entre 50 e 60 anos que estão fora do mercado de trabalho e não contribuem para a Previdência.
“São os sem-sem: sem trabalho e sem aposentadoria”, alerta. Esse grupo cresceu de forma significativa, incluindo até mesmo pessoas entre 70 e 79 anos, que hoje vivem com renda zero.
Exclusão que mata mais cedo
A desigualdade racial se intensifica na velhice. Apesar de negros e negras formarem a maioria da população brasileira, os brancos, sobretudo mulheres brancas, predominam entre os idosos. Em 2023, mulheres brancas representavam 29,4% das pessoas com mais de 60 anos, enquanto homens negros somavam apenas 21,2%. A razão está nos indicadores de mortalidade: a expectativa de vida de um homem negro no Brasil é de apenas 59 anos e dois meses, contra 71 anos e quatro meses para uma mulher branca.
“Os homens negros morrem quase 13 anos antes das mulheres brancas”, destaca Camarano. Esse dado escancara não apenas o racismo estrutural, mas a falência de políticas públicas que promovam igualdade no envelhecimento.
Dificuldades para envelhecer com dignidade
Além da falta de renda, os desafios do envelhecimento no Brasil são compostos por obstáculos físicos e estruturais para a população idosa. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 16% das pessoas com mais de 60 anos têm dificuldade para realizar tarefas básicas, como se locomover ou cuidar da própria higiene. A maioria depende de cuidadores informais, geralmente familiares.
Pelo menos 55 mil idosos vivem em moradias improvisadas ou em situação de rua. Desse total, 15 mil estão registrados nos cadastros das secretarias de assistência social. “Esses estão visíveis para o Estado, está na hora de se fazer alguma coisa”, alerta a pesquisadora.
Economia prateada: um potencial subaproveitado
Apesar dos desafios do envelhecimento no Brasil, os idosos movimentaram R$93,3 bilhões por mês em 2023, segundo o IPEA. Isso representa quase 23% da renda total das famílias brasileiras. O chamado “mercado prateado” é uma força econômica significativa, e ainda pouco explorada pelas políticas públicas de inclusão, trabalho e consumo.
Felizmente, algumas iniciativas já começam a se destacar ao valorizar a longevidade ativa e promover a inclusão social e intelectual na maturidade. Um exemplo é o Instituto Mariano de Estudos e Inovação (IMEI), a primeira faculdade vocacional para pessoas com 60 anos ou mais em Aracaju (SE).
Modelos como esse indicam caminhos possíveis para enfrentar o envelhecimento populacional de forma mais inclusiva e humanizada no Brasil.
O envelhecimento pode ser o início de novas jornadas. Agende sua visita ao IMEI e venha conferir!
