Em 7 de abril celebramos o Dia Mundial da Saúde, data criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para reforçar que o acesso à saúde é um direito humano universal, reconhecido desde a Declaração dos Direitos Humanos de 1948. A cada ano, a OMS escolhe um tema que servirá para uma campanha de saúde pública que se estende ao longo do ano. Em 2026, o tema é “Juntos pela saúde. Apoie a ciência”.
O objetivo da data é conscientizar a população sobre a importância da qualidade de vida, prevenção de doenças e promoção do bem-estar. No Brasil, esse princípio ganhou força constitucional em 1988, quando a saúde passou a ser garantida como um direito de todos e um dever do Estado, um marco que deu origem ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Pensado para assegurar que nenhum brasileiro ficasse sem atendimento, o SUS se tornou a maior política pública do país e o maior sistema público de saúde do mundo. Da Atenção Primária aos procedimentos de alta complexidade, como transplantes, o sistema atende mais de 190 milhões de pessoas e é decisivo para reduzir desigualdades históricas no acesso ao cuidado.
Mesmo enfrentando desafios de financiamento e infraestrutura, o sistema é fundamental para assegurar acesso universal e gratuito, valores previstos na Constituição de 1988 e que moldam a saúde no Brasil desde então.
De acordo com o artigo 196, “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos”. Foi essa diretriz que deu origem ao SUS, considerado um dos maiores sistemas públicos do mundo. Desde então, o país registrou avanços históricos: queda drástica da mortalidade infantil, ampliação das vacinas, tratamento universal para HIV, expansão do pré-natal e maior cobertura da Atenção Primária.
Neste Dia Mundial da Saúde, conheça como funciona um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, o SUS.
Um gigante construído como política de Estado
A criação do SUS durante a redemocratização representou uma ruptura histórica com um modelo antes excludente. Antes dele, apenas trabalhadores com carteira assinada tinham direito à saúde financiada pelo Estado.
Em 1986, o Senado disponibilizou formulários nas agências dos Correios de todo o país como um convite a sociedade para participar da Assembleia Nacional Constituinte para a criação da Constituição. Entre as propostas, uma da enfermeira Selene de Oliveira chamou a atenção. Ela propunha ao Estado a criação de um sistema unificado de saúde, ideia que viria a contribuir para a formação do SUS.

“Que seja aprovada pela Constituinte: A saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado e a prestação da saúde deve-se dar através de um sistema unificado de saúde, que atenda a todos”, escreveu Selene.
Desde 1988, o atendimento passou a ser garantido a todos, sem distinção. Segundo dados do Ministério da Saúde, o SUS realiza 4 bilhões de procedimentos ambulatoriais por ano, responde por 95% dos transplantes feitos no país e opera a maior rede pública de vacinação da América Latina.
Além disso, mais de 75% da população depende exclusivamente do sistema público.
Como o SUS funciona

Atenção Primária
A porta de entrada do SUS é a Estratégia Saúde da Família (ESF), que cobre cerca de 150 milhões de pessoas. Formadas por médicos, enfermeiros, agentes comunitários e equipes multiprofissionais, as unidades atendem desde o acompanhamento de gestantes até o controle de doenças crônicas, vacinação, saúde mental e prevenção.
Urgência e Emergência
O sistema coordena serviços como UPAs, SAMU 192 e prontos-socorros, responsáveis por atendimentos de traumas, AVC, infartos e outras emergências. A integração dessas redes busca reduzir tempo de resposta e mortalidade.
Alta complexidade
No Brasil, cerca de 96% dos transplantes são realizados no SUS. Em 2024, o país bateu o recorde de transplantes, com mais de 30 mil procedimentos. Um passo importante em 2026 foi a criação de um novo imunoterapico para tratamento de mais de 30 tipos de câncer, desenvolvido pelo Butantan.
O SUS oferece, de maneira universal, tratamentos de alto custo e complexidade, como:
- transplantes de órgãos,
- cirurgias cardíacas,
- oncologia,
- hemodiálise,
- terapias imunobiológicas.
Esse é um dos pontos mais reconhecidos internacionalmente como diferencial do Brasil.
Vigilância em Saúde
Do controle de epidemias à fiscalização sanitária, o SUS monitora surtos, investiga riscos ambientais e coordena campanhas de vacinação. Essa rede foi essencial na resposta à pandemia de Covid-19.
Avanços dos últimos anos
Nos últimos anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) passou por transformações e avanços significativos. A pandemia de COVID-19, apesar de ter sido um desafio sem precedentes, acelerou diversas inovações, enquanto políticas públicas recentes focaram em reconstrução, ampliação do acesso e modernização.
O sistema tem incorporado novas tecnologias e políticas de modernização:
Saúde Digital e Telemedicina
- Meu SUS Digital (antigo Conecte SUS): O aplicativo evoluiu de um simples certificado de vacina para uma carteira de saúde digital completa. Hoje, permite visualizar histórico clínico, resultados de exames, medicamentos retirados, agendamentos e acessar a caderneta de vacinação.
- Telemedicina: Regulamentada de forma mais ampla durante a pandemia, a telessaúde foi definitivamente incorporada ao SUS. Isso tem ajudado a levar especialistas (como cardiologistas e psiquiatras) a regiões remotas através dos Núcleos de Telessaúde.
- Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS): Houve um avanço na integração dos dados de saúde entre as esferas municipal, estadual e federal, além da integração com a rede privada, facilitando a continuidade do cuidado do paciente.
Redução de Filas para Cirurgias e Exames
- Programa Nacional de Redução das Filas (PNRF): Lançado recentemente, o programa destinou bilhões de reais para ajudar estados e municípios a zerar ou reduzir drasticamente as filas de cirurgias eletivas (como catarata, hérnia e vesícula) e exames diagnósticos que ficaram represados durante a pandemia.
Ampliação do Acesso Médico e Atenção Básica
- Novo Mais Médicos: O programa foi retomado e reestruturado para fixar profissionais em áreas de vulnerabilidade, periferias e no interior. A nova versão trouxe incentivos para a especialização dos profissionais (como mestrado em Saúde da Família) e benefícios financeiros para médicos que permanecerem mais tempo nas cidades atendidas.
- Equipes Multiprofissionais (e-Multi): Substituindo o antigo NASF, as equipes foram fortalecidas, garantindo que nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais atuem junto aos postos de saúde (UBS).
Fortalecimento do Farmácia Popular
- Gratuidade Ampliada: O programa voltou a fornecer gratuitamente medicamentos para asma, hipertensão e diabetes, além de incluir a gratuidade de remédios para osteoporose e anticoncepcionais.
- Dignidade Menstrual: O Farmácia Popular passou a distribuir absorventes gratuitos para pessoas em situação de vulnerabilidade social e estudantes da rede pública.
- Beneficiários do Bolsa Família: Todos os medicamentos do rol do programa passaram a ser totalmente gratuitos para quem está inscrito no Bolsa Família.
Incorporação de Novas Tecnologias e Medicamentos (Conitec)
- O SUS passou a oferecer tratamentos inovadores e de alto custo. Um grande marco foi a incorporação de terapias genéticas (como o Zolgensma para Atrofia Muscular Espinhal – AME).
- Também foram incorporados novos tratamentos biológicos para câncer, doenças raras e autoimunes, além da ampliação do uso de profilaxia para o HIV (PrEP e PEP).
Retomada da Vacinação
- Após anos de queda nas coberturas vacinais, o Movimento Nacional pela Vacinação foi criado para reverter esse cenário. Houve um trabalho intenso de combate à desinformação (fake news) e busca ativa nas escolas, resultando na recuperação gradual dos índices de vacinação infantil (como poliomielite e tríplice viral) e contra o HPV.
Infraestrutura e Novo PAC da Saúde
- Inclusão da saúde no Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com investimentos previstos para a construção de novas Unidades Básicas de Saúde (UBS), Policlínicas, Maternidades e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), além da renovação da frota do SAMU.
Desafios que ainda persiste
Apesar desses avanços, o SUS ainda enfrenta desafios crônicos e problemas estruturais que se repetem ao longo dos anos. O principal deles é o subfinanciamento crônico, o investimento de recursos abaixo do recomendado para atender às necessidades da população. A falta de orçamento leva a um outro grande problema, a superlotação do sistema de saúde, resultado de uma alta demanda.
